Obrigado, Pequeno Genial

Não o vi jogar no seu auge. Quando saiu em 1984 para o Bordéus de França, após encantar a Europa do futebol no Campeonato Europeu de Seleções desse mesmo ano, eu só tinha 4 anitos, idade insuficiente para guardar memórias ao vivo desse tempo. Quando regressou ao meu Benfica três anos mais tarde, os seus momentos de glória já haviam passado, embora ainda fosse bem a tempo de, durante mais três épocas ter voltado a ser campeão nacional e ter feito parte do plantel de duas equipas “gloriosas” que, em 88 e em 90, apenas perderam a final da Taça dos Campeões Europeus, para PSV e Milan, respectivamente.
Partilhamos, Chalana e eu, não só a naturalidade (e ligação) barreirense, mas também o (genético?) benfiquismo.

 

Chalana no Europeu de 1984

 

Além disso, de uma coisa tenho a certeza, aliás, é praticamente unânime dizer que Chalana foi um dos melhores jogadores portugueses de sempre. Só mesmo os “estratosféricos” Eusébio e CR7 o ultrapassam claramente na genialidade para a prática futebolisitica. De resto é seguro dizer que este pequeno grande jogador foi um recordista em vários planos.

 

Eusébio e Chalana, duas das maiores figuras do Benfica e da Seleção Nacional

 

Contratado ao Barreirense em 74 (com o aval do treinador jugoslavo Milorad Pavic que foi ao Barreiro de propósito para o ver jogar, mas inicialmente para ser integrado na equipa de juniores), bateria em 76, o primeiro dos seus vários recordes tornando-se, à data, o mais jovem jogador a estrear-se pela equipa principal do SLB, com 17 anos, sendo lançado pelo saudoso Velho Capitão, o mítico Mário Wilson. Um recorde que no Benfica durou mais de 20 anos a ser batido (quando Manuel José lançou Hugo Leal em 97, mais novo por meros meses).
Nesse mesmo ano de 76, Chalana bateria ainda o record de mais jovem jogador a marcar um golo na 1ª divisão e, ainda antes de completar 18 anos, estrear-se-ia na Selecção, algo que nem os precoces CR7 e Renato Sanches conseguiram. Isto além de ser logo aí campeão nacional.
Nos oito anos seguintes, até esse momento alto para o futebol português e para Chalana que foi a participação no Euro 84, ele seria A figura do Benfica, vencendo já como ídolo incontestado do clube os campeonatos nacionais de 77, 81 (com Mortimore e Baroti, respectivamente, a treinarem), 83 e 84 (estes dois últimos já com Eriksson à frente da equipa). Nesse ano de 84 a sua transferência para o Bordéus bateria outros dois recordes duma só vez – maior transferência do Benfica e do futebol português à data, numa altura em que o futebol português estava muito longe ainda de ser a “máquina exportadora” que é hoje.

 

Toni, como adjunto, e Sven Goran Eriksson, como treinador

 

Naquela altura, início dos anos 80 (parece que foi há muito tempo, mas não foi), era normal os maiores ídolos do Benfica como Chalana, Carlos Manuel ou Bento, partirem diariamente do Barreiro para o Estádio da Luz, na carrinha deste último, para irem treinar. Ficaram conhecidos como “O grupo do Barreiro”. Outros tempos dirão alguns….
Infelizmente, a ida para França, ao mesmo tempo que lhe permitiria a (suposta) independência financeira, coincidiu igualmente com o início do seu fim como jogador, assolado por inúmeras lesões e várias operações aos joelhos, tendo feito nesses três anos, menos de 30 jogos pelo Bordéus.

 

A apresentação do Pequeno Genial no Bordeus

 

Ainda assim, e como disse antes, voltaria ao Benfica para mais três anos como jogador, onde além de três treinadores diferentes (Skovdhal, Toni e, novamente, Eriksson), as lesões e operações o continuaram a assolar (ficou afastado de ambas as finais europeias de 88 e 90 por isso mesmo, e tanta falta teria feito o “verdadeiro grande” Chalana com o PSV), sendo ultrapassado no “onze” por malta mais nova, como o brasileiro Wando (que tinha sido contratado para o “substituir”, mas nunca o conseguiu), e pelo hoje em dia “mal amado” Pacheco.
Em 90, Eriksson sempre pragmático e estrategico, decidiu arriscar ao rejuvenescer o plantel, e duma só vez prescindiu do “pequeno genial”, Diamantino, Álvaro e Bento. Iniciou aí um novo ciclo vitorioso (pelo menos até aos problemas financeiros quase terem acabado com o clube, alguns anos mais tarde), onde além da aposta clara em novos ídolos que já lá estavam (Paneira, o já mencionado Pacheco, Valdo, Ricardo, Magnusson, Rui Águas, Neno, etc.) lançou uma nova “fornada” de ex-juniores e campeões mundiais – Paulo Sousa, Rui Costa, Paulo Madeira, Rui Bento….
Chalana ainda faria mais dois anos como jogador (no Belenenses e no, também meu, Estrela da Amadora), mas já completamente sem condições fisicas.

 

Belenenses e Estrela da Amadora, os dois outros clubes da carreira de Fernando Chalana

 

Como a vida é feita de ciclos (que como a própria palavra em si deixa antever, fazem-nos ao mesmo tempo avançar e voltar, mas com outro conteúdo e forma), Chalana voltaria também ao Benfica a meio da década de 90 para iniciar um novo ciclo, agora como um dos treinadores das camadas jovens, onde ajudou a formar jogadores como Ruben Amorim, Verissímo, Maniche, o já mencionado Hugo Leal, etc. Sendo que já no inicio do século e após mais uma cíclica crise da equipa principal assumiria no fim de 2002, o cargo de treinador interino.

 

Chalana enquanto treinador do Benfica, a dar instruções a Rui Costa

 

Nesse curto espaço de tempo ainda conseguiu ganhar um jogo em Alvalade para o campeonato, ao mesmo tempo que daria mais uma importante contribuição ao Benfica e ao futebol nacional, transformando um jovem extremo direito/esquerdo pouco mais que banal, num dos melhores laterais direitos do clube e da Selecção Nacional das últimas duas décadas – Miguel.
Nos últimos anos, depois de novamente integrado nas camadas jovens, além de ajudar treinadores como Rui Vitória e Bruno Lage a darem os primeiros passos, ainda ajudou a formar mais uma ou duas gerações de craques, desde dos esquecidos mas precoces Miguel Vítor, Miguel Rosa, André Carvalhas, Roderick Miranda, mas também, Ivan Cavaleiro, Gonçalo Guedes, João Cancelo ou Bernardo Silva….
Por tudo isto e muito mais que aqui não cabe, a história de Chalana (con)funde-se com a do Benfica e com a do Futebol.
Obrigado, Pequeno Genial
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